Checklist técnico de prontidão para colocar IA em produção
Oito blocos verificáveis, com evidência exigida em cada um, para decidir se um sistema de IA está pronto para produção — não para demo.
Sistemas de IA passam em demo com uma facilidade que não diz nada sobre produção. A pergunta certa não é "funciona?", é "o que evidencia que continua funcionando sob carga real, dado real e adversário real?". Este checklist está organizado em oito blocos. Cada item pede uma evidência concreta — log, dashboard, documento, teste — e não uma afirmação verbal de que "está ok".
Use como gate de lançamento. Se um bloco não tem evidência, o sistema não vai para produção; ele vai para uma lista de pendências com dono e prazo.
Este artigo é a contraparte técnica de "Checklist do executivo: 30 perguntas antes de escalar IA". O executivo pergunta se deve escalar; este documento verifica se dá para escalar sem quebrar.
1. Dados e índice
| Item | Evidência exigida |
|---|---|
| Fonte de dados versionada e rastreável | Hash ou tag de versão do dataset/índice usado em cada resposta |
| Processo de reindexação documentado | Runbook com frequência, gatilho e tempo de execução |
| Detecção de dados obsoletos | Métrica de idade média do conteúdo indexado |
| Deduplicação e limpeza antes da ingestão | Relatório do pipeline de pré-processamento |
| PII tratada antes de entrar no índice | Log de mascaramento/redação com taxa de cobertura |
Um índice sem versão é uma caixa preta: ninguém consegue explicar por que a resposta de terça é diferente da de quinta.
2. Identidade e permissões
- Toda chamada ao modelo carrega identidade do usuário final, não apenas credencial de serviço.
- Escopo de dados retornado respeita RBAC/ABAC da fonte original — o modelo não "vaza" para cima do que o usuário poderia ver.
- Chaves de API e tokens de serviço rotacionam automaticamente, com evidência de última rotação.
- Existe teste automatizado que tenta acessar dado fora do escopo do usuário e falha como esperado.
Evidência: relatório de teste de autorização (não apenas autenticação) rodado no último ciclo de release.
3. Avaliação e regressão
- Conjunto de avaliação (golden set) com casos reais, não só sintéticos, e atualizado com incidentes passados.
- Métrica de qualidade definida antes do deploy (acurácia, taxa de alucinação, aderência a formato) com limiar mínimo aceito.
- Pipeline de avaliação roda em CI a cada mudança de prompt, modelo ou índice.
- Comparação lado a lado entre versão atual e candidata antes de promover.
Evidência: relatório de avaliação automatizada com data, versão do modelo e delta contra a linha de base.
4. Observabilidade e trilha
- Toda interação é logada com: entrada, saída, contexto recuperado, versão do modelo, custo e latência.
- Trilha de auditoria permite reconstruir por que o sistema deu uma resposta específica.
- Dashboards de qualidade e custo são visíveis para quem opera, não só para quem desenvolveu.
- Alertas configurados para queda de qualidade, aumento de latência e picos de custo.
Evidência: exemplo de reconstrução completa de uma interação a partir dos logs, do zero.
5. Custo e limites
| Controle | O que verificar |
|---|---|
| Limite de gasto por período | Teto configurado por ambiente/cliente |
| Alertas de consumo anômalo | Threshold e canal de notificação definidos |
| Cache de respostas repetidas | Taxa de acerto de cache reportada |
| Modelo dimensionado à tarefa | Justificativa de por que não é o modelo mais caro disponível |
| Previsão de custo em escala | Projeção com volume esperado em 3 e 12 meses |
Evidência: relatório de custo por unidade de negócio (por usuário, por ticket, por documento processado).
6. Segurança
- Prompt injection: existem testes com payloads conhecidos de injeção direta e indireta (via documento recuperado), com taxa de bloqueio documentada.
- Segredos: nenhuma chave, senha ou token aparece em prompt, log ou resposta do modelo — verificado por scanner automatizado.
- Egress: tráfego de saída do ambiente de inferência é restrito a destinos aprovados; chamadas de ferramentas (function calling) passam por allowlist.
- Sandboxing de ferramentas: qualquer ação que o modelo pode disparar (enviar e-mail, executar código, chamar API externa) roda com permissão mínima e log obrigatório.
Evidência: relatório do último teste de red team ou pentest específico para IA, com achados e status de correção.
7. Resposta a incidentes
- Runbook específico para incidentes de IA (resposta tóxica, vazamento de dado, alucinação com impacto de negócio).
- Canal de kill switch: capacidade de desligar ou reverter uma funcionalidade de IA sem depender de deploy completo.
- Papel definido de quem decide pausar o sistema e critério objetivo para acionar.
- Comunicação pré-aprovada para usuários afetados em caso de incidente.
Evidência: registro do último simulado (tabletop exercise) de incidente de IA, com data e participantes.
8. Plano de saída do fornecedor
- Contrato ou arquitetura permite trocar de provedor de modelo sem reescrever a aplicação inteira.
- Prompts, avaliações e dados de fine-tuning estão em formato próprio, não preso ao fornecedor.
- Estimativa de tempo e custo de migração documentada e testada ao menos uma vez (mesmo que parcialmente).
- Camada de abstração (roteador de modelo, anticorrupção) isola a aplicação de mudanças de API do fornecedor.
Evidência: documento de plano de saída, revisado nos últimos 12 meses, com teste de portabilidade registrado.
Como usar este checklist
Não é para virar auditoria de seis meses. Para cada bloco, atribua um status simples:
- Verde: evidência existe, está atualizada e foi revisada por alguém fora do time que construiu.
- Amarelo: existe intenção ou processo parcial, sem evidência completa.
- Vermelho: não existe.
Um sistema com qualquer bloco vermelho em identidade, segurança ou resposta a incidentes não deveria ir para produção com dado real, independentemente de quão bem ele performou na demo.
O que fazer na segunda-feira
- 1.Rode este checklist contra o sistema de IA mais próximo de produção que você tem hoje e marque verde/amarelo/vermelho em cada um dos oito blocos.
- 2.Para cada vermelho em segurança, identidade ou incidentes, abra um item bloqueante de lançamento — não uma nota para "depois".
- 3.Agende o primeiro simulado de resposta a incidente de IA nas próximas duas semanas, mesmo que o sistema ainda não tenha usuários reais.
- 4.Escreva o plano de saída do fornecedor antes de assinar qualquer contrato de longo prazo — depois fica mais caro.
Leitura complementar
Trilha executiva:
- Checklist do executivo: 30 perguntas antes de escalar IA na empresa — a leitura de negócio deste mesmo tema.
